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Telemóveis

Os telemóveis são, actualmente, o brinquedo preferido dos portugueses. Graças a eles passámos a entrar pela vida adentro da pessoa ao nosso lado, seja na rua, no autocarro ou numa loja, ficamos a saber detalhes perfeitamente entediantes ou verdadeiramente escabrosos, entre explicações sussurradas ou gritos.
Entraram nas suas vidas para ficar, como a batata ou o arroz. Não há horário televisivo que não tenha um anúncio a uma qualquer operadora, marca, tarifário ou inovação. O mesmo se passa ao folhearmos uma revista ou apenas ao passearmos. Não há como fugir. É uma propaganda que nos persegue sem dó nem piedade. E habituados a ela, consideramos normalíssima toda esta informação, que nos leva ao desejo desenfreado de possuir ainda mais um telemóvel. As lojas enchem-se de possíveis compradores, como se de um artigo de primeira necessidade se tratasse.
É mais barato que trocar constantemente de carro, com a facilidade de vermos os nossos aparelhos transformados num porquinho cor-de-rosa ou num moderno mini computador em pouco segundos.
E se de início os toques que fugiam à norma eram apelidados de ridículos e os infractores olhados de lado, rapidamente as áreas de marketing das marcas e das operadoras perceberam que "sair da casca" era uma boa forma de ganhar mais uns trocos e rapidamente inverteram as tendências. Multiplicam-se as ofertas de serviços, imagens ou toques a condizer com a personalidade do utilizador. Os adultos perdem-se e os adolescentes e as crianças adoram.
O telemóvel é reduzido no tamanho mas as possibilidades são inúmeras, desde as diversas formas comunicar - as mais óbvias - à máquina fotográfica - a mais popular - o pequeno aparelho tornou-se num gigante que a todos enfeitiça deixando as operadoras e as diversas marcas bastante felizes.

As nossas
Crianças e a Internet

Tenho vindo a sintonizar-me com uma realidade que nos media apenas surge em notícias que tenham o impacto do "sucedeu dramaticamente sem que se imaginasse". Ou seja, "debate-se" o assunto quando a criança já desapareceu.
Como adulta, sei exactamente o que procuro ou me interessa quando navego pelas águas aparentemente nítidas da Web. E sei os contactos que desejo, ou não, ter em programas de conversação - como o Messenger, por exemplo, um dos mais banais. Os pais têm uma noção muito vaga da face negativa - que pode ultrapassar o aspecto positivo - que a novidade trará aos filhos, ainda que, alguns adiem instintivamente apresentar-lhes este novo mundo.
As escolas, assim que se inicia o 5º ano, exigem trabalho de pesquisa que também integre a Internet como ferramenta. A intenção é excelente, mas raramente se encontra inserida num projecto sólido que ensine as crianças a serem cuidadosas. E estas navegam a sério e com desembaraço em pouco tempo. E navegam facilmente para longe da costa. E muitos pais não estão cientes ou até preparados para se aperceberem disso. Alguns porque pertencem a gerações que se mantiveram afastadas da informática, outros porque olham para os filhos como crianças que numa banca de jornais só espreitarão as revistas infantis.
E a Internet é uma imensa banca de jornais e revistas com todo tipo de temas à disposição. E infelizmente, muitas das imagens irão ser nocivas, além da facilidade de contacto com seres que pretendem algo mais dos nossos filhos, se não nos mantivermos atentos.

Quem bate em quem?

A violência sobre a mulher tem sido amplamente debatida.
Mas nesta questão, continuam a ser deixadas para trás as crianças. E é imperativo que exista a noção de que a violência é também praticada em larga escala contra estas. Com a nossa autorização. No seio da própria família.
Continua a ser não ser considerado incorrecto o uso de violência física como parte integrante do ensino de uma criança. Como se o uso da força, por ser aparentemente educativa, possa perder a sua conotação de violência.
Parece-me inexplicável que sendo grave, e até passível de ser punível por lei, um adulto agredir outro adulto - de massa corporal relativamente similar - seja no entanto, perfeitamente aceitável, que esse mesmo adulto utilize a agressão física para disciplinar uma criança, cuja massa corporal é, muito provavelmente, um terço ou um quarto da sua.
O que muda neste quadro? A forma psicológica de encarar a violência que, apelidada de disciplina, se torna aceite por todos? É inadmissível que esta situação, que ocorre em inúmeros agregados familiares, continue a passar em branco. Uma realidade constantemente desculpada com a justificação de que se utiliza a força de forma controlada.
Quando chegamos ao fundo da questão, no entanto, deparamo-nos com crianças que sofreram agressões que já ultrapassaram há muito os nossos limites psicológicos do que é aceitável. Ninguém se dera conta porque as crianças, muitas vezes, se transformaram em seres invisíveis. Para quantas pessoas é comum o filho do vizinho que grita desalmadamente porque... "por alguma razão será"?
Todos ficamos profundamente chocados se presenciarmos um homem a bater numa mulher. E é comum que alguém intervenha. Mas se um pai bate no filho, a sensação de desconforto é calada e é raro interferirmos. Vindo ao de cima a ideia enraizada de que não nos devemos intrometer na educação que cada um dá à sua família.
Assim se pensava em relação às mulheres. Havia o dever de "educá-las", se necessário, pela agressão física. Estas passavam das mãos, pouco delicadas de um pai, para as de um marido que as manteria debaixo da mesma forma de violência. Não será afinal a herança desta mentalidade que mantemos para com as crianças? Persistindo na despenalização de "gigantes" que de mão em riste educam... ou matam?

Desemprego e/ou o desespero


"Centro de emprego" - Instituto de emprego e formação profissional - não é mais do que um nome e provavelmente se lhe chamassem de "centro de desempregados", honraria melhor o apelido. O semblante dos que chegam demonstra bem o que vai na alma de cada. A derrota inunda o ambiente ainda antes de serem dadas as informações necessárias para que os formulários fiquem completos. E será que ficam? É-se reduzido, à pressa, a um código identificativo retirado de uma listagem de profissões sempre desactualizada.
Dos vários - ou nenhuns - empregos à disposição, um dos mais recorrentes é o de "coveiro". Mas por ali, as pessoas aparentam já ter assistido ao próprio enterro e pouca ou nenhuma vontade de enterrar mais mortos. Vive-se um período em que entrar no "Instituto de emprego e formação profissional" apenas significa estar desempregado.
A sala enche-se diariamente de um desânimo depressivo, sem dó nem piedade para os que entram e para os que já lá estão. Toda gente se mantém, no entanto, atenta à numeração que se sucede em visores electrónicos - algo se modernizou - que lhes indica quando chegará a sua vez. Só que já chegou. Já receberam a carta de despedimento, o já "não precisa de vir amanhã", o já "não precisamos mais de si". Já se reuniram com o rosto sombrio da incredulidade e insegurança que os perseguirá durante meses. Já foram facilmente descartados, acusados, pisados ou anulados. Muitos foram reduzidos a emoções caóticas que ainda não sabem gerir.

Ir ao "centro de emprego" é um acto que se torna compulsivo após a morte de uma etapa da vida profissional. Não há fuga. Tem que se enfrentar toda essa burocracia mesmo que ainda não tenha sido possível assimilar a situação. Por isso quando ali chegam ainda tentam disfarçar. Mas fingem tão mal que é palpável a indiferença que aparentam perante o óbvio que todos partilham, o medo. Os números passam. Vão enrolando ou dobrando, vezes sem conta, a senha que lhes calhou. Bem vestidos, mal vestidos, assim-assim... Mães com crianças. De todas as raças, de todas as idades, de todos os credos.
E desses, raros são os que reparam numa outra área emocional, reservada aos "veteranos" que aguardam sem reacção por mais uma reunião - ao serem chamados pelos administrativos do centro, assemelham-se a um rebanho cordato - em que lhes será demonstrado pela terceira ou quarta vez que um desempregado de longa duração "não desconta para a segurança social" e que isso "é uma mais valia para a empresa empregadora".
Não fosse a empresa empregadora preferir recibos verdes, já ter gente a receber parte do ordenado "por fora" e a preencher falsas "ajudas de custo" e não precisar desse género de mais valias. Não fosse já um dado adquirido que no "centro de emprego" se tem que comparecer e o resto são papéis para arquivo.