sento-me num dos sofás a ouvir o som do piano que se mistura com o ruído de fundo das famílias que se passeiam pelo centro comercial, e a quem a banalidade dos fins-de-semana as faz sentir-se confortáveis, certinhas nos seus mundos regidos por compassos sem novidade.
A melodia do piano acalma-me o desejo de a agarrar, de a proibir de ser como é. Como sempre, deixo-a desgastar-se em devaneios com que não concordo. E aguardo pacientemente que chegue, atafulhada de sacos, embrulhos e fantasias.
Depois, dou-lhe a mão, e dirigimo-nos a Sintra. Existem estradas que não exigem mapas ou que se percorrem sem se verbalizar os porquês e esta é uma delas.
Amo-te, digo-lhe. Amo-te incondicionalmente, com os teus inúmeros sacos, saias, sapatos e malas e sonhos. E amo-te ainda mais assim, sentados na Periquita, a comer um travesseiro quentinho, com recheio de ovo e a sentir o calor da tua mão.
Amo-te, sussurra-me. E pelo brilho no olhar guloso tenho a certeza que sim. A magia visceral de Sintra não lhe permitiria mentir-me.
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Simetrias
A boca é idêntica à tua, símile, numa simetria sem fuga. Observo-a num retrato excessivamente artístico, como todos os dessa época. Bem mais fotogénico que eu, perco-me na fotografia e nos teus traços.
O verdadeiro mistério nunca foi sermos tão parecidos. Foi descobrir-te, com a mesma idade que aparento agora, num retrato a preto e branco demasiado artístico - eu, que deixei para trás todas as fotos do passado, à espera de um dia as poder furtar ao cativeiro invisível da recusa - e não compreender porque te guardo comigo.
Até descobrir, escrevinhado a lápis no verso, "anúncio família".
O verdadeiro mistério nunca foi sermos tão parecidos. Foi descobrir-te, com a mesma idade que aparento agora, num retrato a preto e branco demasiado artístico - eu, que deixei para trás todas as fotos do passado, à espera de um dia as poder furtar ao cativeiro invisível da recusa - e não compreender porque te guardo comigo.
Até descobrir, escrevinhado a lápis no verso, "anúncio família".
Gosto do pretérito,
dos tempos em que o Outono era Outono. Em que as palavras eram apenas palavras porque bailavam na nossa mente como folhas caídas de árvores ao sabor do vento. E nós éramos esse vento irrequieto, sem direcção certa porque nem sabíamos que o vento tinha que ter uma direcção.
O presente é a certeza de que se foi inocente, de que em algum momento nos aproximámos mil vezes mais daquilo que ansiamos encontrar agora.
Por isso amo as imagens e os cheiros que ficaram dum passado longínquo e incorrupto... Quando os sinto não restam dúvidas. Foi. Aconteceu. Que saudades do mar e da areia quase fria nos pés. Que saudades do cheiro de Monsanto. De quando Monsanto era apenas uma mata. Nada mais a não ser isso mesmo, uma mata.
Que saudades desses passeios e de quando nos bancos dos jardins de Lisboa não se sentava a morte... Apenas vida e inocência.
O presente é a certeza de que se foi inocente, de que em algum momento nos aproximámos mil vezes mais daquilo que ansiamos encontrar agora.
Por isso amo as imagens e os cheiros que ficaram dum passado longínquo e incorrupto... Quando os sinto não restam dúvidas. Foi. Aconteceu. Que saudades do mar e da areia quase fria nos pés. Que saudades do cheiro de Monsanto. De quando Monsanto era apenas uma mata. Nada mais a não ser isso mesmo, uma mata.
Que saudades desses passeios e de quando nos bancos dos jardins de Lisboa não se sentava a morte... Apenas vida e inocência.
Sussurros...
Em determinados momentos creio que irei ceder. Escolher um dos portões que me são sussurrados pelos seres alados que emergem das profundezas da terra...
E é a terrível vontade de ceder que me permite observá-los demoradamente. Medir forças. Tentar compreender até que ponto as órbitas negras desses seres podem ser lidas.
Esperam por mim com a quietude enfurecida que emana de todos as criaturas que não esquecem os seus intentos.
Quantas vezes, num só dia, me atraem até passagens secretas, segredando-me que Deus as colocou ali somente para mim. Falseando os dados. Sacrificando os seus temíveis espectros a outras vestes... aos sorrisos dos que amei, às palavras dos que nunca esqueci, aos doces momentos do passado e da infância. Até que finalmente as oiça e anseie pelos seus portões. Portões que simulam caminhos que não existem.
Aceno violentamente "não!"
No dia seguinte recomeçará tudo de novo, uma montanha russa de emoções que me fará atingir picos insanos de tudo e de nada. De novo as portas, os caminhos, os precipícios forjados apenas para me iludir. Vozes doces ao ouvido.
Seguidas de momentos em que sairei de mim e alcançarei evasões ilusórias, segundos precisos de paz. Nesses instantes, valho mais a pena. As minhas lágrimas fazem sentido e os meus sorrisos ganham a força dos antepassados. Dos mortos, dos vivos, e até dos que estão por nascer.
E é a terrível vontade de ceder que me permite observá-los demoradamente. Medir forças. Tentar compreender até que ponto as órbitas negras desses seres podem ser lidas.
Esperam por mim com a quietude enfurecida que emana de todos as criaturas que não esquecem os seus intentos.
Quantas vezes, num só dia, me atraem até passagens secretas, segredando-me que Deus as colocou ali somente para mim. Falseando os dados. Sacrificando os seus temíveis espectros a outras vestes... aos sorrisos dos que amei, às palavras dos que nunca esqueci, aos doces momentos do passado e da infância. Até que finalmente as oiça e anseie pelos seus portões. Portões que simulam caminhos que não existem.
Aceno violentamente "não!"
No dia seguinte recomeçará tudo de novo, uma montanha russa de emoções que me fará atingir picos insanos de tudo e de nada. De novo as portas, os caminhos, os precipícios forjados apenas para me iludir. Vozes doces ao ouvido.
Seguidas de momentos em que sairei de mim e alcançarei evasões ilusórias, segundos precisos de paz. Nesses instantes, valho mais a pena. As minhas lágrimas fazem sentido e os meus sorrisos ganham a força dos antepassados. Dos mortos, dos vivos, e até dos que estão por nascer.
Fama
Tenho-te na sensibilidade das palavras. No sorriso com que olho para lá do que parece intransponível. Perco-me em pensamentos sem direcção, sonhadoramente brincando com as palavras que posso modelar com a única capacidade que ainda posso chamar minha. Como se finalmente escrevesse um diário sem fim, que afinal - e isto seria uma longa história - nunca precisou ter princípio.
Sou mais eu e gostava que alguém o partilhasse.
É essa a fama que o ser humano inevitavelmente deseja.
Sou mais eu e gostava que alguém o partilhasse.
É essa a fama que o ser humano inevitavelmente deseja.
Não se pode voltar atrás...
Detesto o tempo que galopa sobre mim e me torna inexistente. Tempo desperdiçado. Sonhos por cumprir. As horas, os minutos, os segundos gastos no nada, no vazio. E tanto de mim por ser. Tanta beleza, e eu, sem conseguir atingi-la.
Olho em volta e apercebo-me de cada erro cometido, e sinto a inércia de tudo o que se torna impossível ou utópico. Quero recordações. Prefiro avançar sobre o futuro... quase às cegas.
Mas conheço-me, e sei o quanto sou incansável na busca das tintas com que diluo o que for demasiado real.
E sinto a solidão, essa dor imensa que de um trago se recusa a aceitar como verdadeiras, todas as convicções que a vida impôs. A solidão das decisões inexoráveis.
Desconheço certezas. Já não estudo para me formar, namoro para casar ou sequer trabalho por um ordenado certo. Todos os contornos do real se tornaram estranhamente indefinidos mas no entanto, mais do que nunca, acredito no direito de retomar o caminho que um dia abandonei, e afasto-me do que se supõe ser correcto. Mas nos torna insanos.
Olho em volta e apercebo-me de cada erro cometido, e sinto a inércia de tudo o que se torna impossível ou utópico. Quero recordações. Prefiro avançar sobre o futuro... quase às cegas.
Mas conheço-me, e sei o quanto sou incansável na busca das tintas com que diluo o que for demasiado real.
E sinto a solidão, essa dor imensa que de um trago se recusa a aceitar como verdadeiras, todas as convicções que a vida impôs. A solidão das decisões inexoráveis.
Desconheço certezas. Já não estudo para me formar, namoro para casar ou sequer trabalho por um ordenado certo. Todos os contornos do real se tornaram estranhamente indefinidos mas no entanto, mais do que nunca, acredito no direito de retomar o caminho que um dia abandonei, e afasto-me do que se supõe ser correcto. Mas nos torna insanos.
Contei-te que já sei usar o microfone?
Não, provavelmente achei que não valia a pena. A minha voz ouvir-se-ia mal.
Metamorfoseaste-te num dos muitos silêncios que transformo em garatujas nas folhas rasgadas de um caderno de infância...
Anoto com rigor as lembranças nas linhas azuis mal impressas dessas folhas antigas. Transformo-te sempre em palavras. A única forma que afinal sempre tiveste... Palavras, apenas palavras, já que nunca poderei trazer-te para o real.
Guardo um pequeno espaço para colocar a tua fotografia. Nunca o farei. Residirá apenas na minha lembrança a sensação que me trouxe o teu sorriso...
Depois o tempo torná-la-á desmaiada, matá-la-á, e ter-te-ei somente nas linhas que escrevo, nas pontas dos dedos, nas teclas que escolho - teclas modernas que substituem o som tranquilo do lápis. Para que saibam que tu e eu existimos.
Ficaremos no éter. E tudo farei para que esse amor não se torne inútil...
Devo-te a capacidade de escrever mais que dez linhas sem medo de mim própria.
Metamorfoseaste-te num dos muitos silêncios que transformo em garatujas nas folhas rasgadas de um caderno de infância...
Anoto com rigor as lembranças nas linhas azuis mal impressas dessas folhas antigas. Transformo-te sempre em palavras. A única forma que afinal sempre tiveste... Palavras, apenas palavras, já que nunca poderei trazer-te para o real.
Guardo um pequeno espaço para colocar a tua fotografia. Nunca o farei. Residirá apenas na minha lembrança a sensação que me trouxe o teu sorriso...
Depois o tempo torná-la-á desmaiada, matá-la-á, e ter-te-ei somente nas linhas que escrevo, nas pontas dos dedos, nas teclas que escolho - teclas modernas que substituem o som tranquilo do lápis. Para que saibam que tu e eu existimos.
Ficaremos no éter. E tudo farei para que esse amor não se torne inútil...
Devo-te a capacidade de escrever mais que dez linhas sem medo de mim própria.
Amo-te profundamente...
Procuro-te no tempo. Detesto mortes rápidas e preciso de renunciar lentamente ao mundo que me rodeia. Despedir-me de ti. Acompanhar-te ao meu velório, ao meu enterro, ficar ombro a ombro com a tua dor. Só assim tenho a certeza de ter-te dito tudo que em vida me neguei explicar-te.
Reparo nas tuas lágrimas aprisionadas por entre as pestanas. Tenho a certeza que me observas através dessas gotículas de dor. Prende-se-me a voz por te dizer adeus. É por isso que os mortos não falam...
Terás saudades minhas. E eu? Eu sentirei saudades de demasiados. Percebes? Entendes porque não consigo falar, porque nem um sussurro sai para te acalmar a dor? A minha também é imensa. Vivi o passado mas neste momento sinto um desejo ardente de futuros.
Vejo a terra cair sobre mim. Não está escuro. As minhas lágrimas prendem-se nas tuas.
Muito de mim está em ti, e muito de ti estará em mim... quando fores apenas um sopro da minha passagem por este mundo.
E embora nunca te tenha gerado, amo-te profundamente.
Reparo nas tuas lágrimas aprisionadas por entre as pestanas. Tenho a certeza que me observas através dessas gotículas de dor. Prende-se-me a voz por te dizer adeus. É por isso que os mortos não falam...
Terás saudades minhas. E eu? Eu sentirei saudades de demasiados. Percebes? Entendes porque não consigo falar, porque nem um sussurro sai para te acalmar a dor? A minha também é imensa. Vivi o passado mas neste momento sinto um desejo ardente de futuros.
Vejo a terra cair sobre mim. Não está escuro. As minhas lágrimas prendem-se nas tuas.
Muito de mim está em ti, e muito de ti estará em mim... quando fores apenas um sopro da minha passagem por este mundo.
E embora nunca te tenha gerado, amo-te profundamente.
"miss u"
Invento mil desculpas para acreditar nas razões que me aprisionam a estas paredes, a um mundo invisível. Vi-me amarfanhada pela solidão, estrangulada pelo silêncio, vítima do vazio. Um rato de laboratório percorrendo um labirinto insolúvel.
Ligo a máquina, identify... Sou eu...
Assumo por fim a minha identidade de lobo disfarçado de ovelha. Colecciono sentimentos, palavras, defeitos. Busco a perfeição e retalho seres, procurando as palavras que num ecrã quase vazio atenuam a solidão, e esbatem as paredes em que me encerrei.
Já fui uma outra pessoa, coleccionei conversas de café, sorri, chorei, dancei à beira mar. Mas passou tudo. Tornei-me introspectiva. A solidão diária matou-me, para me fazer reviver transformada numa contadora de histórias.
Amo as palavras, a mágoa que mas ensina, as folhas em branco, as perguntas por fazer, os ecrãs por responder e os sorrisos de outros. As palavras trazem memórias de épocas felizes, de lágrimas, de rodopios mentais, de não saber quem era. Ainda hoje continuo sem saber.
Os que em tempos se recusaram amar-me, agora tragam as minhas palavras como se outra fosse, e não aquela de sempre, que apenas mendigava amor.
Ligo a máquina, identify... Sou eu...
Assumo por fim a minha identidade de lobo disfarçado de ovelha. Colecciono sentimentos, palavras, defeitos. Busco a perfeição e retalho seres, procurando as palavras que num ecrã quase vazio atenuam a solidão, e esbatem as paredes em que me encerrei.
Já fui uma outra pessoa, coleccionei conversas de café, sorri, chorei, dancei à beira mar. Mas passou tudo. Tornei-me introspectiva. A solidão diária matou-me, para me fazer reviver transformada numa contadora de histórias.
Amo as palavras, a mágoa que mas ensina, as folhas em branco, as perguntas por fazer, os ecrãs por responder e os sorrisos de outros. As palavras trazem memórias de épocas felizes, de lágrimas, de rodopios mentais, de não saber quem era. Ainda hoje continuo sem saber.
Os que em tempos se recusaram amar-me, agora tragam as minhas palavras como se outra fosse, e não aquela de sempre, que apenas mendigava amor.
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