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Insanidade consciente
Acordei em sobressalto. Ondas gigantes, enraivecidas, engoliam areias e rochedos como se fossem conchas abandonadas. E de súbito, porque os pesadelos são peças de teatro constituídas por fragmentos dispersos, tudo se aquietou...
Mas via os meus registos de escritor empaparem-se... O esboço do meu livro desfazia-se na espuma mansa que restara da investida das ondas. E os meus olhos tentavam apossar-se de cada palavra que se desvanecia, incapaz de me apropriar dos meus próprios parágrafos.
Abri os olhos. O meu coração ainda não cabia no peito. Toquei-te muito ao de leve com as costas da minha mão na tua pele nua, sem desejar despertar-te. Como que a assegurar-me de que ali estavas. Como se fosses tu, cabelos, olhos, nariz, boca e corpo, as páginas perdidas do meu livro.
Estavas ali, inteira. Acalmei. Vim ao de cima do pesadelo, submergi na realidade e na luz que entrava pela janela. Tornei as paredes do quarto opacas. Deixei de sentir nos pés a areia molhada. E encostei a cabeça aos teus cabelos ondulados que se espalhavam pela almofada.
Cheguei-me mais a ti. E repentinamente a água gélida do oceano invadiu-me aos borbotões e eu soçobrei nas ondas gigantes de novo e gritei. Gritei como nunca o fizera até aí. Gritei sem som. Porque ninguém me ouviu. Gritei como se fosse a última vez que pronunciasse o impronunciável.
O teu cadáver gelado contra o meu corpo fendeu para sempre a minha mente do meu ser. Emudeci, fiquei vítreo. Ficámos assim horas e horas a fio. Tu, gelada, ausente, e o calor do meu corpo a aquecer-te até nada restar da minha razão. Apodrecemos. Mas nada disso me importou. Os teus belos cabelos ondulados colavam-se-me, enrodilhavam-se nos meus dedos. E as suas ondas eram as páginas, as palavras perdidas do livro por acabar. E os sábios do mundo decretaram-me louco. Mal sabendo que existo nas memórias do que foste.
"pdi"
A "puta da idade"ou a ironia para a inevitável crise dos trinta quando plenos de dúvidas existenciais sobre o que parecia ficar por satisfazer, esta vestia tão bem as culpas de tudo. Até cada pequena ruga era registada e guardada num ficheiro com extensão "pdi". Sentíamo-nos protegidos por uma saudável cortina de insanidade juvenil. Com rigor dir-se-ia que nada nos atingia a não ser a impaciência própria da juventude, com aquelas dúvidas que assomam vagamente os planos traçados, e quem sabe, a noção de umas quantas semi-finais inconclusivas.
Entendo agora* que não era nada disso. A "puta da idade" é olhar em redor e vermo-nos tal como também somos, esboços falíveis de vidas labirínticas. Éramos tão jovens... Possuíamos portões de madeira maciça - fechados a sete chaves - e protegíamo-nos da passagem do tempo, das mortes emocionais dos incógnitos, das agonias que empurram tantos e tantos para as esquinas que habitam as sombras... Sombras que desconhecíamos.
Era demasiado fácil. E enxergamos hoje - sem fuga - que as portadas se desmoronam com inexaurível exactidão. Fomos delapidando o tempo em corredores de imaginários castelos de areia, e agora, vida e morte, apresentam-se-nos à porta e ensinam-nos que a tal "puta da idade" não é o que julgávamos. Não... não é uma brincadeira de miúdos imortais...
E eu? Que pensava? Enfrentava o meu reflexo no espelho e era só eu, sem rugas, só revolta pessoal. Era dona e senhora de uma legislação própria sobre a angústia. E abruptamente a revolta, a angústia e o destino dos outros emergiu arquejante, numa fúria assassina e arrasou as marés domadas da minha existência, invadiu-me e defronto-os desprevenida. Com medo. Medo de encarar quem quer que se reveja no reflexo das lágrimas que não consigo estancar. Porque dói, porque o sofrimento dos outros se tornou real. Porque não os quero a sucumbir perante mim, quero-os em concursos idiotas a ganhar felicidade a rodos.
Envelhecer seria tão simples se a passagem do tempo se fizesse apenas para nós. E quero gritar para não colherem flores, para apenas sentirem a sua fragrância e as tingirem de matizes inéditos, nessa imagem aparentemente banal sobre fruir os momentos belos que nos são dados, a meio de jornadas por encerrar.
*Poderia não explicar mas desta vez creio que o farei. Alguns de nós passamos parte da nossa vida intocados, como se "sofrimento" se lesse apenas em livros ou em filmes melodramáticos. Ou vemos os telejornais e já estamos anestesiados... Até que um dia a realidade nos bate à porta. Chamei-lhe envelhecimento, mas não é necessário que se tenha esta ou aquela idade. Pode ser agora, amanhã, anteontem... E por vezes não é um amigo ou um familiar ou um conhecido... são todos ao mesmo tempo. A vida prega-nos partidas porque lhas está a pregar a eles. Por vezes, egoisticamente, desejávamos colar os cacos e reconstruir a redoma em que nos escudáramos. Uma redoma que não suportou e estalou. Observamos o horizonte, a vida - a nossa e a deles - com os cacos nas mãos, apertamo-los até que sangremos. E sangramos lágrimas também porque há destinos que não podemos mudar e outros que não desejam ser mudados.
Entendo agora* que não era nada disso. A "puta da idade" é olhar em redor e vermo-nos tal como também somos, esboços falíveis de vidas labirínticas. Éramos tão jovens... Possuíamos portões de madeira maciça - fechados a sete chaves - e protegíamo-nos da passagem do tempo, das mortes emocionais dos incógnitos, das agonias que empurram tantos e tantos para as esquinas que habitam as sombras... Sombras que desconhecíamos.
Era demasiado fácil. E enxergamos hoje - sem fuga - que as portadas se desmoronam com inexaurível exactidão. Fomos delapidando o tempo em corredores de imaginários castelos de areia, e agora, vida e morte, apresentam-se-nos à porta e ensinam-nos que a tal "puta da idade" não é o que julgávamos. Não... não é uma brincadeira de miúdos imortais...
E eu? Que pensava? Enfrentava o meu reflexo no espelho e era só eu, sem rugas, só revolta pessoal. Era dona e senhora de uma legislação própria sobre a angústia. E abruptamente a revolta, a angústia e o destino dos outros emergiu arquejante, numa fúria assassina e arrasou as marés domadas da minha existência, invadiu-me e defronto-os desprevenida. Com medo. Medo de encarar quem quer que se reveja no reflexo das lágrimas que não consigo estancar. Porque dói, porque o sofrimento dos outros se tornou real. Porque não os quero a sucumbir perante mim, quero-os em concursos idiotas a ganhar felicidade a rodos.
Envelhecer seria tão simples se a passagem do tempo se fizesse apenas para nós. E quero gritar para não colherem flores, para apenas sentirem a sua fragrância e as tingirem de matizes inéditos, nessa imagem aparentemente banal sobre fruir os momentos belos que nos são dados, a meio de jornadas por encerrar.
*Poderia não explicar mas desta vez creio que o farei. Alguns de nós passamos parte da nossa vida intocados, como se "sofrimento" se lesse apenas em livros ou em filmes melodramáticos. Ou vemos os telejornais e já estamos anestesiados... Até que um dia a realidade nos bate à porta. Chamei-lhe envelhecimento, mas não é necessário que se tenha esta ou aquela idade. Pode ser agora, amanhã, anteontem... E por vezes não é um amigo ou um familiar ou um conhecido... são todos ao mesmo tempo. A vida prega-nos partidas porque lhas está a pregar a eles. Por vezes, egoisticamente, desejávamos colar os cacos e reconstruir a redoma em que nos escudáramos. Uma redoma que não suportou e estalou. Observamos o horizonte, a vida - a nossa e a deles - com os cacos nas mãos, apertamo-los até que sangremos. E sangramos lágrimas também porque há destinos que não podemos mudar e outros que não desejam ser mudados.
Omissão
Nunca gostei de perder nem a tostões, e não tenho jeito para o logro. Assim decidi que nunca jogaria. Nem em jogos de azar, nem na vida. Tornei-me antes num observador nato. Coleccionei atitudes, analisei-as ao milímetro, mas mantive-me sempre à margem.
Se me dedicasse ao xadrez anteciparia todos os movimentos do velho Kasparov. Ser-se analítico, permite-nos perspectivas curiosas e intuitivamente reconhecemos o carácter, mais ou menos predador, de cada peão no tabuleiro da vida.
Muitos dirão que nunca ir a jogo nesta sociedade é uma lacuna, porque com a passagem dos anos conhecemos lances suficientes que nos permitem um xeque-mate eficaz. Ou seja, atingir o topo, ilesos. Se os fins invalidam os meios? Essa já é outra questão.
Como os jogadores arrastam irremediavelmente alguém pelo caminho, com o tempo intensificou-se-me o instinto. Mas surgiu a náusea.
Os jogadores atravessam a multidão crendo-se incorpóreos, trespassando mortais que - pensam - não sentirão o seu embate. E embora me tenha mantido afastado, na minha mente evidencia-se o que observei, pressenti e muitas vezes soube que sucederia. E pondero as denúncias que nunca fiz...
Sim, admito, transformei-me numa omissão. Vi os que iniciaram na partida e não atingiram a chegada. Desprezei o que aconteceria aos que se cruzaram pelos atalhos dos que jogam por pura sobrevivência. Virei a face. Não jogo, não faço acusações e sei que a minha omissão custou vidas. Mas não as contabilizo, tal como não conto jogadas. Só observo.
Para as náuseas? Tomo um comprimidito qualquer que alguém me receitou.
Se me dedicasse ao xadrez anteciparia todos os movimentos do velho Kasparov. Ser-se analítico, permite-nos perspectivas curiosas e intuitivamente reconhecemos o carácter, mais ou menos predador, de cada peão no tabuleiro da vida.
Muitos dirão que nunca ir a jogo nesta sociedade é uma lacuna, porque com a passagem dos anos conhecemos lances suficientes que nos permitem um xeque-mate eficaz. Ou seja, atingir o topo, ilesos. Se os fins invalidam os meios? Essa já é outra questão.
Como os jogadores arrastam irremediavelmente alguém pelo caminho, com o tempo intensificou-se-me o instinto. Mas surgiu a náusea.
Os jogadores atravessam a multidão crendo-se incorpóreos, trespassando mortais que - pensam - não sentirão o seu embate. E embora me tenha mantido afastado, na minha mente evidencia-se o que observei, pressenti e muitas vezes soube que sucederia. E pondero as denúncias que nunca fiz...
Sim, admito, transformei-me numa omissão. Vi os que iniciaram na partida e não atingiram a chegada. Desprezei o que aconteceria aos que se cruzaram pelos atalhos dos que jogam por pura sobrevivência. Virei a face. Não jogo, não faço acusações e sei que a minha omissão custou vidas. Mas não as contabilizo, tal como não conto jogadas. Só observo.
Para as náuseas? Tomo um comprimidito qualquer que alguém me receitou.
Vejo-te ainda,
em cada objecto que foi teu, e teima em permanecer nesta casa. Vejo-te nas sombras. Vejo-te no branco turvo do olhar dos outros, na saudade que torna todos os seres intemporais. Observava-te tantas vezes calada. Preferia que não reparasses em mim. Escolhia, sem dúvida, não te encarar. Cresci sem ti e nunca te apercebeste disso. Não saberia que dizer-te. Ainda hoje, recuso olhares que descansem no meu. Sinto-me gelar, torno-me irracional, perco-me entre medos que não sei nomear.
Teria sido tudo mais simples se tivesse dito a tempo que te amava. Mas era tão infantil que me contentava em coleccionar fugas.
E naquela manhã voltei a fazê-lo. Tinha à minha frente um copo de leite e um croissant misto. E tu? Bebias café? Não me recordo. Respondia tentando centrar-me num texto bem delimitado. Mas driblaste-me e acabámos por falar de morte. E falar da morte de outros, pareceu-me uma boa maneira, de mais uma vez não te enfrentar. Deixei-te seguir por aí.
Em poucas frases, acabaste por colar a morte à tua infância. O enquadramento tornou-se esse, a tua infância. Também tu, claro, também tinhas os teus medos. Provavelmente não como os meus, sempre me pareceste muito mais temerário do que eu alguma vez fui ou terei coragem de ser.
Imaginei-te a correr pelo pó da estrada, atrás do homem das cantigas, tal como descrevias. Recriei a cena, como se olhasse para uma fotografia desbotada, amarelada.
Sabia que adoravas viver. Embora tivesses a percepção de que a morte dançava perto de ti, por entre as cortinas de um imaginário salão de baile onde te encontravas e de onde não te deixavam sair. E se eu fosse, nessa época, apenas um pouco menos infantil, teria percebido o quanto te negaras de todas as formas a aceitar o convite, o quanto a vida realmente te fascinava.
Observei-te, já imóvel, ainda nessa tarde, e assim ficaste.
Transformei os instantes desse dia numa série de polaroids. Ainda me recuso a aceitar esse pó em que te tornaste. Ainda me recuso a aceitar o vazio súbito, a impossibilidade de emendar o passado ou vencer o futuro. Vivo no presente, mas à tua procura. A vida tem-me dado tempo para tentar entender, mas ainda vejo os teus olhos nos olhos dos outros, e continuo a fugir. E sei que nas minhas fugas contantes, cometo os mesmos erros com outros, transformando-os em fantasmas, antes do tempo, como fiz contigo.
Observo a prateleira onde te encontras, na velha estante. O gato cinza dos bigodes longos que ocupa agora a casa, contorna-te cuidadosamente. Pára e fita-me silenciosamente.
Teria sido tudo mais simples se tivesse dito a tempo que te amava. Mas era tão infantil que me contentava em coleccionar fugas.
E naquela manhã voltei a fazê-lo. Tinha à minha frente um copo de leite e um croissant misto. E tu? Bebias café? Não me recordo. Respondia tentando centrar-me num texto bem delimitado. Mas driblaste-me e acabámos por falar de morte. E falar da morte de outros, pareceu-me uma boa maneira, de mais uma vez não te enfrentar. Deixei-te seguir por aí.
Em poucas frases, acabaste por colar a morte à tua infância. O enquadramento tornou-se esse, a tua infância. Também tu, claro, também tinhas os teus medos. Provavelmente não como os meus, sempre me pareceste muito mais temerário do que eu alguma vez fui ou terei coragem de ser.
Imaginei-te a correr pelo pó da estrada, atrás do homem das cantigas, tal como descrevias. Recriei a cena, como se olhasse para uma fotografia desbotada, amarelada.
Sabia que adoravas viver. Embora tivesses a percepção de que a morte dançava perto de ti, por entre as cortinas de um imaginário salão de baile onde te encontravas e de onde não te deixavam sair. E se eu fosse, nessa época, apenas um pouco menos infantil, teria percebido o quanto te negaras de todas as formas a aceitar o convite, o quanto a vida realmente te fascinava.
Observei-te, já imóvel, ainda nessa tarde, e assim ficaste.
Transformei os instantes desse dia numa série de polaroids. Ainda me recuso a aceitar esse pó em que te tornaste. Ainda me recuso a aceitar o vazio súbito, a impossibilidade de emendar o passado ou vencer o futuro. Vivo no presente, mas à tua procura. A vida tem-me dado tempo para tentar entender, mas ainda vejo os teus olhos nos olhos dos outros, e continuo a fugir. E sei que nas minhas fugas contantes, cometo os mesmos erros com outros, transformando-os em fantasmas, antes do tempo, como fiz contigo.
Observo a prateleira onde te encontras, na velha estante. O gato cinza dos bigodes longos que ocupa agora a casa, contorna-te cuidadosamente. Pára e fita-me silenciosamente.
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